domingo, 29 de julho de 2012
ode ao encontro (e ao desencontro também)
:
dos encontros e desencontros,
quando do acaso se faz um caso e estória inventada tem sim final,
mesmo que não seja feliz.
de dentro para fora e fazer da prosa um resultado de verbos no infinitivo:
cativar, depois de encontrar, marcar a ferro e fogo.
sem pretextos, sem relógios e sem roupas.
despojo as vestes e, nu, encaro a sua platéia com minhas vergonhas à mostra:
defeitos, preconceitos, cismas e manias.
sem disfarces, sem censura e sem pudor.
pele, pêlo e pau completam a cena dantesca.
.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
sobre a tal relevância de tudo ao seu redor
tudo que se toque, gente ou coisa, tem uma certa relevância, até um certo tempo. começa colorida, enebriante, vício, necessidade e compulsão. como cheiro de cabelo, de livro novo ou de posto de gasolina quando você é criança. o transcurso de dias, meses e anos tem a capacidade de desbotar memórias, trazem enjoo do cheiro do cabelo, acabam com o cheiro do livro novo e fazem você crescer e achar cara a gasolina.
a digestão e percepção do tempo não custam muita coisa, algum sofrimento, talvez, e isso vai depender sempre da sua necessidade de manutenção e estabilidade. o comodismo é um eterno aliado para manutenção do que tem de acabar, do que deve ter ponto final e encerrar capítulo. é este tal comodismo que protela e faz prosperar, falsamente, o que já perdeu sua relevância. o ser humano, numa insensata necessidade de cultuar, devotar, ser cultuado e ser devotado, é capaz de engolir e deglutir mais do mesmo, mais uma vez, pelo cagaço da mudança eminente.
algumas coisas são certas amigo: o cheiro do cabelo tem de ser tão intenso que se torne imperceptível para não enojar, o livro deve ter páginas amareladas ou folhas novas com conteúdo passageiro e o posto de gasolina... bom, é melhor não ter carro.
bom também, meu amigo, é mandar um foda-se generalizado, fazer uma faxina, interromper esse tal de tempo, desregular a evolução e sua cadência, atrapalhar essa medida de relevância e renovar, recomeçar, resetar. separar roupas do armário que você não usa há mais de um ano, terminar um casinho (quase) amoroso, emprestar o livro para um amigo que (com certeza) não o irá te devolver com dobras e marcas indesejadas e vender o carro (se você ainda insiste em tê-lo). essas chacoalhadas no seu universo, ao redor do seu umbigo, vão te fazer sentir uma renovação repentina, uma deliciosa sensação de liberdade, que fatalmente será interrompida por qualquer rotina que se anuncie, um vencimento do aluguel, por exemplo, e você começará a sentir o Mr. Tempo de volta, a correr em sua direção e PAH! aquela trombada da realidade, que se aliou ao tempo só pra te sacanear.
é, dentre as coisas que são certas, a mais certa de todas é a conclusão de que o mundo não gira ao redor do seu umbigo e que, à exceção de (no máximo) meia dúzia de pessoas, ninguém quer saber de suas aflições, dores, dúvidas e piadinhas infames. o mundo está ocupado demais para cuidar de você.
há braços!
a digestão e percepção do tempo não custam muita coisa, algum sofrimento, talvez, e isso vai depender sempre da sua necessidade de manutenção e estabilidade. o comodismo é um eterno aliado para manutenção do que tem de acabar, do que deve ter ponto final e encerrar capítulo. é este tal comodismo que protela e faz prosperar, falsamente, o que já perdeu sua relevância. o ser humano, numa insensata necessidade de cultuar, devotar, ser cultuado e ser devotado, é capaz de engolir e deglutir mais do mesmo, mais uma vez, pelo cagaço da mudança eminente.
algumas coisas são certas amigo: o cheiro do cabelo tem de ser tão intenso que se torne imperceptível para não enojar, o livro deve ter páginas amareladas ou folhas novas com conteúdo passageiro e o posto de gasolina... bom, é melhor não ter carro.
bom também, meu amigo, é mandar um foda-se generalizado, fazer uma faxina, interromper esse tal de tempo, desregular a evolução e sua cadência, atrapalhar essa medida de relevância e renovar, recomeçar, resetar. separar roupas do armário que você não usa há mais de um ano, terminar um casinho (quase) amoroso, emprestar o livro para um amigo que (com certeza) não o irá te devolver com dobras e marcas indesejadas e vender o carro (se você ainda insiste em tê-lo). essas chacoalhadas no seu universo, ao redor do seu umbigo, vão te fazer sentir uma renovação repentina, uma deliciosa sensação de liberdade, que fatalmente será interrompida por qualquer rotina que se anuncie, um vencimento do aluguel, por exemplo, e você começará a sentir o Mr. Tempo de volta, a correr em sua direção e PAH! aquela trombada da realidade, que se aliou ao tempo só pra te sacanear.
é, dentre as coisas que são certas, a mais certa de todas é a conclusão de que o mundo não gira ao redor do seu umbigo e que, à exceção de (no máximo) meia dúzia de pessoas, ninguém quer saber de suas aflições, dores, dúvidas e piadinhas infames. o mundo está ocupado demais para cuidar de você.
há braços!
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
celebração do tempo
Tinha dois anos de idade e a relva verde cultivada por meu avô para correr, brincar e descobrir a vida nas suas mais singelas delicadezas e coloridos que ele me mostrava e ensinava pacientemente. há alguns anos minha vó tinha resolvido dedicar o seu tempo a ele, cuidar de sua velhice e dar os últimos dias felizes no campo. o cheiro da comida saía da cozinha e nos chamava para o almoço e a sobremesa era posta à beirada da mesa que, naquele tempo, era alta e um desafio para alcançar as fatias de goiabada e queijo branco. os dois riam e se divertiam enquanto eu desbravava, nas pontas dos pés, os cantos da mesa à procura de mais.
o tempo foi demasiadamente cruel e solitário para ela que aceitava solenemente o arrastar do tempo em época que tv e telefone por satélite ainda estavam distantes da realidade do campo brasileiro. o velho acordava cedo, ela também, a rotina se repetia solenemente, café da manha, conversas breves sobre os afazeres do dia e necessidades de compras na cidade. ele saía e andava, cuidava do jardim, galinheiro, laranjal e marcava os pés com os frutos mais doces que nos seriam oferecidos na próxima visita. ela cuidava da casa, das roupas, comidas e embalava caprichosamente potes com molhos e carnes cozidas deliciosas para que seus filhos e netos mantivessem no paladar a sua lembrança.
o dia acabava cedo. o cair do sol e o esfriar da grama anunciavam a chegada do meu avô depois de mais um dia de plenitude. ele não conseguiria viver por muito tempo na cidade e minha vó aceitava celebrar sua existência e plenitude afastada de tudo e de todos. era um pacto inconsciente de recompensa por tudo que havia sido e tinha feito. ela cumpria a sua parte e abrira mão de sua própria existência para acompanhar os últimos anos do homem que a resgatara há mais de 30 anos atrás.
a infância que ela havia tido e a diferença de idade dos dois deixavam clara a necessidade que ela tinha de um porto seguro, alguém que conservasse e cuidasse dela como a uma filha. gestos de carinho, companheirismo e, pela primeira vez, ser a prioridade na vida de alguém.
as lembranças que tenho do meu avô vem do carinho que ele deixou semeado e através dela que fez os pequenos gestos e atitudes dele se propagarem no tempo. não pude sentar com ele embaixo de uma árvore por ele escolhida e saborear aquele fruto que havia sido guardado para nós, mas ainda sinto o doce do suco da fruta, a sua presença e tudo que foi ensinado e guardado por minha vó.
o tempo ser materializou ao marcar o rosto de minha vó, fragilizar seu corpo e no embranquecer de seus cabelos. mostrou também que é capaz de transformar tudo em pequenos grãos, diminuir e relativizar os grandes, imensos e urgentes problemas de nossas existências que, acredite, não são tão relevantes assim para além das pessoas que amamos e que nos amam. as perdas necessárias que me vierem serão recebidas de braços abertos, o tempo é sempre bem-vindo e esperado.
a iminência de um reencontro com minha vó, ouvi-la contar histórias, cantar fados e contar os causos de um outro tempo me fazem sentir que ele - o meu avô -, e ela também, ainda continuarão por muito tempo dentro de mim.
o sítio, árvores, grãos e sementes do meu avô continuarão comigo, semeados por minha vó, e em meus filhos até que o tempo cuide de dissipá-los na poeira.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
aquilo que dá no coração
ele rumava para o norte, meio que instintivamente, quando se deparou com ela. era um reencontro, havia tempos que os caminhos tinham se cruzado, mas não sabiam àquela época que haveria um novo encontro. ele estava agora cansado de tudo, de tantas coisas e desacreditando de tantas outras. tinha até construído um muro em volta do pouco que restara dele, revestiu-se de armadura e seguia. ela também vinha assim: protegida.
o reencontro tinha sido como os dois esperavam, casualmente conversaram, contaram um pro outro, de forma resumida, por onde andaram nesse tempo, afinal eram mais de 3 anos. a risada dela era cativante e ele percebeu isso no primeiro gargalhar. arrancou dele um sorriso leve, bom de sorrir. o tempo era curto, tudo tinha prazo, receio e fronteiras pré-estabelecidas. isso tudo aconteceu envolto pela praia, céu e os morros cariocas. ela indicou o lugar onde iriam se sentar, o que iriam beber e o rapaz seguiu solenemente todas as indicações.
o lugar tocava músicas do chico buarque, a noite era quente e ele já havia bebido cervejas suficientes para que a coragem de beijá-la chegasse sem freio. a banda parecia tocar uma trilha sonora a partir daí. dormiram juntos um sono profundo.
o reencontro que tinha data e hora marcada chegou ao fim, ao menos por ali. os dois ainda não sabiam como aquele fim de semana, a praia, o beijo, a música e o sono iria mudar tudo dali pra frente. ele aqui e ela lá, distância física, que atormentou ainda mais o rapaz quando ele soube que seria ainda maior. tratou de partir novamente ao seu encontro, dessa vez tinha deixado toda a sua armadura em casa, tinha pulado os muros que o cercavam. tinha decidido tentar transpassar todas as fronteiras dela, desarmado.
um passou a gostar do outro, a precisar da conversa, risada, companhia e do toque. haviam se despojado de todos os seus medos, deram-se as mãos e resolveram tentar, pular, dar o passo à frente rumo ao desconhecido. tinha nela agora uma dependência sem tamanho e sentia que ela também precisava dele. a felicidade que lhe tomava o peito acabava por sobressaltar aos olhos toda vez que pensava nela.
fizeram um com o outro um pacto de amor, verdade, carinho e companheirismo, sem que qualquer promessa precisasse ser feita de pés juntos. eles simplesmente acreditam um no outro, sentem segurança e são felizes. ele tem nela, e sabe que ela também nele, uma espécie de fortaleza, onde podem se refazer, sonhar e amar alheios ao que acontece no outro mundo, ali dentro o mundo é só deles e os céus parecem conspirar em função dos dois.
posso dizer que ele é feliz e que dela vem felicidade. também sei que experimentam uma espécie de amor que ainda não haviam provado, que se alimentam desse amor e é por ele que os dois tem vivido.
ele sou eu e ela é você, amor. você é o meu sinônimo de felicidade, amor e carinho. é a fortaleza onde gosto de estar.
é com você que descobri aquilo que dá no coração. amor, com você, por você e pra você.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
sem parar
.
cansado de tanta coisa e tão pouco me revigora. poucas horas e momentos conseguem me reavivar. poucas pessoas não me cansam e quem não me cansa não está a todo tempo comigo. será que me cansaria delas também se estivessem ao meu lado? melhor que fiquem longe, já são tão poucas... ando correndo demais, sempre querendo chegar lá, mesmo sem saber o quanto ainda falta neste caminho. não há quem estenda a mão, não há quem possa querer ir comigo enfrentar tudo, o que quer que seja, não há. o suor escorre pela testa durante o caminho. e ela lá, sem saber porque ficou e eu sem saber porque não veio. não aprendi a tocar violão e ela sempre gostou de música, deve ser isso. e se não for, e se for eu? e se eu for? ainda bem que ela ficou, não aguentaria ter o cheiro dela ao lado por um tempo e depois deixar que escapasse pelo vento. que pena que ela ficou. uma avalanche de palavras que seriam boas de ser ditas, tantas outras boas de serem ouvidas e só silêncio, tão quieto que ecoa e ensurdece todos os outros sons ao redor. bem que ela podia ser e estar em outras, bem que podia me travestir de outros, disfarçado, encapuzado, teria mais coragem e, sem responsabilidades e expectativas, tentaria, falaria, agiria, gritaria, seria, iria, ia. tantos verbos no futuro do pretérito que não sei mais pra onde olhar, se pra frente, futuro, planos e sonhos, ou se pro passado, pretérito, encerrado e lamentado. continuo num caminho de retornos, cruzamentos e avenidas sempre vazias, vazio e oco. paro e imagino o movimento que ficou, que já foi e que ficou lá com ela. lá também ficaram sons, palavras, sensações. não consigo mais conduzir a vida e o enredo dela. não há mais pausa, capítulos, expectativas. sem escrever "ela" não tenho história, não há minha história sem a dela. preciso dividir o ar, pular, gritar, sentir, sem fugir!
não há tempo para parágrafos
.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
em cada jardim
o homem prostrado, com os pés fixos
imoblidade, fragilidade
buscas e conquistas em tantos anos
e só hoje conseguiu sentar numa cadeira,
mirar o horizonte ao longe.
e agora consegue ver o que poderia ter sido,
tudo que deixou...
estavam lá esperando por ele,
horizonte, jardins, flores
o tempo castigou a pele, as marcas do tempo
e uma vaga lembrança da feição jovem
largaste tudo por tão pouco, estais arrependido?
a juventudo é burra, cega, ignorante
não sabia o que buscar,
impossível ver o que estava ao meu lado,
tudo por pequenos troféus estúpidos que enferrujam à estante
eu mesmo, que já estou enferrujado, alquebrado,
fico sentado, à margem de tudo,
admirando o que resta do tempo e da vida em mim.
pequeno sopro e tudo se esvai pelo vento que vem do leste.
imoblidade, fragilidade
buscas e conquistas em tantos anos
e só hoje conseguiu sentar numa cadeira,
mirar o horizonte ao longe.
e agora consegue ver o que poderia ter sido,
tudo que deixou...
estavam lá esperando por ele,
horizonte, jardins, flores
o tempo castigou a pele, as marcas do tempo
e uma vaga lembrança da feição jovem
largaste tudo por tão pouco, estais arrependido?
a juventudo é burra, cega, ignorante
não sabia o que buscar,
impossível ver o que estava ao meu lado,
tudo por pequenos troféus estúpidos que enferrujam à estante
eu mesmo, que já estou enferrujado, alquebrado,
fico sentado, à margem de tudo,
admirando o que resta do tempo e da vida em mim.
pequeno sopro e tudo se esvai pelo vento que vem do leste.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
a ponte
o corpo balançava leve em cima da ponte. o vento frio soprava vindo do leste, de onde ele tinha acabado de partir. senti de leve as nuances daquilo que tinha acabado de abandonar, um turbilhão de coisas e sensações, mas a culpa ainda era dela. o cheiro dela estava sempre por detrás de qualquer outro que eu tentasse identificar. é como se tivesse infectado tudo com detalhes que por fim sempre remetessem a ela. a inveja na sua forma mais simples.
pensava no meu apartamento e quando deixei a chave na portaria com o chaveiro que ela tinha colocado tempos antes, sem me avisar. fui surpreendido numa dessas noites cansadas, num tive forças pra reagir e jogar o peduricalho no lixo. deixei o molho de chaves presos à aquele souvenir que ela deve ter trazido de algum lugar da europa. era a única chance que tinha de me vingar: deixando aquilo para o próximo morador. o zelador começou a desvencilhar o chaveiro do molho de chaves, quando bati o portão escutei ele me advertindo sobre o esquecimento.
ela sempre ia no mesmo bar, algumas mesas e cadeiras distribuídas num salão mal varrido. pelos detalhes empoeirados nos cantos da parede, parecia ter sido um lugar bem frequentado há algumas décadas. eu tinha acabado de mudar para o quarto-e-sala no centro. descobri o boteco quase sem querer, de relance vi a moça sentada à mesa, sozinha, com uma garrafa de cerveja. olhei o relógio, eram quase 8h da noite.
na semana seguinte me esquivei de últimos detalhes na repartição e cheguei ao bar com meia hora de antecedência, sentei à mesa que ela ocupava há uma semana e pedi a mesma cerveja. em alguns minutos ela entraria e iria me ver invadindo seu território e só teria duas saídas: dividir ou lutar. ela entrou no bar e, irresoluta, sentou na minha frente. despojou o cachecol e o casaco barato em cima da mesa mesmo e perguntou se podia se sentar ali. respondi pedindo mais um copo para o garçom.
naquela noite ela já conheceu meu apartamento e começou a se apossar do meu mundo. cedi um pequeno canto no armário e ela começou a deixar algumas mudas de roupa para os finais de semana que ela resolvia dormir por lá. mudou o lugar o tapete da sala com a desculpa que seu salto ficava preso nele.
em pouco tempo parecia que eu mesmo era o visitante de minha casa. não tinha percebido que tinha perdido meu espaço nessa guerra. até gostava dessas briguiinhas e discussões, o sexo sempre era melhor assim: raiva e amor. amor não, desejo no sentido mais animalesco que se possa imaginar. éramos dois devassos, ossuídos pela raiva e os dois eram obstindos, queria me impor a ela. ela dominava, dizia a hora de começar, terminar e como tudo seria feito.
depois disso ela sumia por alguns dias. inicialmente, pensava me sentir mais vivo, conseguia perceber todas amudanças que ela havia feito entre um sumiço e outro. e traçava planos e regras que seriam ditadas assim que ela resolvesse voltar. em vão. alguns dias depois, começava a sentir sua falta, queria as brigas e o sexo. o sexo fazia mais falta, a explosão da pele, sentir a sua respiração em meu ouvido ee suas pernas me envolvendo.
quando ela aparecia eu já tin ha realocado as coisas por ela mudadas. ela reparava em tudo e se dizia cansada. tínhamos uma espécie de código, e nada era dito ou cobrado. ela saía do banho ainda com os cabelos molhados e nos atracávamos, como animais, e, finalmente, sentia as suas pernas enlaças à minha volta.
(continua)
pensava no meu apartamento e quando deixei a chave na portaria com o chaveiro que ela tinha colocado tempos antes, sem me avisar. fui surpreendido numa dessas noites cansadas, num tive forças pra reagir e jogar o peduricalho no lixo. deixei o molho de chaves presos à aquele souvenir que ela deve ter trazido de algum lugar da europa. era a única chance que tinha de me vingar: deixando aquilo para o próximo morador. o zelador começou a desvencilhar o chaveiro do molho de chaves, quando bati o portão escutei ele me advertindo sobre o esquecimento.
ela sempre ia no mesmo bar, algumas mesas e cadeiras distribuídas num salão mal varrido. pelos detalhes empoeirados nos cantos da parede, parecia ter sido um lugar bem frequentado há algumas décadas. eu tinha acabado de mudar para o quarto-e-sala no centro. descobri o boteco quase sem querer, de relance vi a moça sentada à mesa, sozinha, com uma garrafa de cerveja. olhei o relógio, eram quase 8h da noite.
na semana seguinte me esquivei de últimos detalhes na repartição e cheguei ao bar com meia hora de antecedência, sentei à mesa que ela ocupava há uma semana e pedi a mesma cerveja. em alguns minutos ela entraria e iria me ver invadindo seu território e só teria duas saídas: dividir ou lutar. ela entrou no bar e, irresoluta, sentou na minha frente. despojou o cachecol e o casaco barato em cima da mesa mesmo e perguntou se podia se sentar ali. respondi pedindo mais um copo para o garçom.
naquela noite ela já conheceu meu apartamento e começou a se apossar do meu mundo. cedi um pequeno canto no armário e ela começou a deixar algumas mudas de roupa para os finais de semana que ela resolvia dormir por lá. mudou o lugar o tapete da sala com a desculpa que seu salto ficava preso nele.
em pouco tempo parecia que eu mesmo era o visitante de minha casa. não tinha percebido que tinha perdido meu espaço nessa guerra. até gostava dessas briguiinhas e discussões, o sexo sempre era melhor assim: raiva e amor. amor não, desejo no sentido mais animalesco que se possa imaginar. éramos dois devassos, ossuídos pela raiva e os dois eram obstindos, queria me impor a ela. ela dominava, dizia a hora de começar, terminar e como tudo seria feito.
depois disso ela sumia por alguns dias. inicialmente, pensava me sentir mais vivo, conseguia perceber todas amudanças que ela havia feito entre um sumiço e outro. e traçava planos e regras que seriam ditadas assim que ela resolvesse voltar. em vão. alguns dias depois, começava a sentir sua falta, queria as brigas e o sexo. o sexo fazia mais falta, a explosão da pele, sentir a sua respiração em meu ouvido ee suas pernas me envolvendo.
quando ela aparecia eu já tin ha realocado as coisas por ela mudadas. ela reparava em tudo e se dizia cansada. tínhamos uma espécie de código, e nada era dito ou cobrado. ela saía do banho ainda com os cabelos molhados e nos atracávamos, como animais, e, finalmente, sentia as suas pernas enlaças à minha volta.
(continua)
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