havia recostado a cabeça em seu ombro,
num gesto cansado e indefeso,
fechou os olhos e sentia o sangue dela correr pelas veias,
invadir o peito e explodir o coração em batidas ritmadas.
sentia o seu corpo receoso a cada explosão
um medo inconsciente
sabia que a partir daquele momento
não seria mais capaz de sobreviver sozinho,
não tinha sangue, nem veias, muito menos coração
que fossem capazes de provocar uma explosão daquele jeito
o bater do peito dela,
e a cabeça desejando recostar àquele ombro nu todos os dias.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
prelúdio de ano novo
a ida incessante dela começa a me deixar confuso. todo dia, no mesmo horário, com sol ou chuva, ela passa num passo apertado. o salto estala pela calçada ritmadamente, o cabelo está sempre preso da mesma forma deixando o pescoço branco à mostra. as vezes ela passava com um vestido branco, normalmente às terças-feiras, e torcia pro vento do outono esvoaçar a barra e mostrar um pedacinho das coxas brancas que se escondiam ali embaixo.
conhecia os traços do corpo dela como poucos, sabia quando tinha engordado ou quando não tinha dormido bem. conseguia distinguir o dia da semana pelo tom da maquilagem que cobria a pele. nas segundas ela passava um corretivo embaixo dos olhos e nas sextas saía com as bochechas coradas, levemente alaranjadas. imaginava o caminho que fazia até o trabalho, provavelmente entrava na estação do metrô desviando das pessoas, parecia sempre atrasada. esperava cheia de angústia o ônibus, retocava o batom, secava o suor do rosto e já entrava na loja dando uma desculpa qualquer, falava do trânsito e do calor (no verão), ou do frio (no inverno).
À noite colocava a minha xícara de café sobre a mesinha de plástico embaixo da janela e esperava a hora dela passar de volta. o passo já parecia mais cansado e a cabeça mais baixa que na ida. não sabia o que ela ainda ia fazer em casa, quem sabe o jantar e o almoço do dia seguinte que levaria dentro da bolsa pra economizar algum dinheiro para uma roupa nova. ou quem sabe teria que lavar as roupas para que pudesse manter a rotina dos figurinos que usava para trabalhar. quem sabe não faria nada disso e se deitaria na cama, com o corpo nu.
ontem a noite mesmo sonhei que tinha descido no horário em que ela voltava do trabalho, havia ensaiado um esbarrão para que pudesse pedir desculpas cordiais e ouvir sua voz. ensaiei também um convite para um lanche na padaria que fica no outro quarteirão, que somente seria feito se ela desse um sorriso após as desculpas. e hoje tinha decidido descer e realizar o sonho planejado. escolhi a roupa casual que vestiria para que ela não percebesse que hoje já não trabalho mais e que fico o dia inteiro sentado à escrivaninha resolvendo pequenos problemas banais da vida de aposentado. chamei a faxineira logo cedo para uma limpeza geral, o meu quarto-e-sala anda cheirando a velho. pode ser eu mesmo, ou o tempo que estou morando aqui, tudo que o tempo toca termina por feder.
estava tudo pronto, conferi o vinho na geladeira e guardei a maconha que tinha encomendado de um garoto que mora com a avó no andar de baixo, podia ser que ela quisesse uns tragos enquanto bebesse o vinho. quando estava à porta parei, senti o frio da maçaneta, o cheiro de lavanda barata que saía da minha pele e parei para tentar lembrar da última vez que tinha tido uma mulher nos meus braços, ou mais longe ainda, quando tinha tido uma mulher dentro deste apartamento.
larguei a maçaneta, me desfiz do paletó azul-marinho na banqueta da cozinha e enchi a xícara com um café que requentava desde o início da tarde na cafeteira. puxei a poltrona, sentei junto à janela e espiava a tv muda do outro lado da sala quando a vi apontar na esquina com a sua roupa de quinta-feira. totalmente previsível: a mesma roupa, com a mesma maquilagem, o mesmo caminho, o café, o apartamento, ela, tudo era extremamente repetitivo! não sei de onde ela vem e nem pra onde vai, não sei quantos filhos e muito menos se é cheirosa, charmosa, se consegue conversar sobre música e filosofia. na minha mente ela ainda é tudo isso, tudo que envolve aquela mulher tem um mistério e se eu tivesse descido teria descoberto que ela não era nada daquilo que eu pensava e que até o seu cheiro me incomodaria. melhor mesmo ver de longe, ter como verdade os meus delírios e esperar ela passar. e lá vai ela com a sua vidinha, cabeça baixa e passo cansado.
vou esperar a tv cansar de se exibir do outro lado e sair do ar, voltar à escrivaninha e esperar a hora de voltar à janela amanhã de manhã. afinal de contas ela não pode ser mais interessante do que já é na minha mente. pior seria conhecer seus defeitos. boa noite!
conhecia os traços do corpo dela como poucos, sabia quando tinha engordado ou quando não tinha dormido bem. conseguia distinguir o dia da semana pelo tom da maquilagem que cobria a pele. nas segundas ela passava um corretivo embaixo dos olhos e nas sextas saía com as bochechas coradas, levemente alaranjadas. imaginava o caminho que fazia até o trabalho, provavelmente entrava na estação do metrô desviando das pessoas, parecia sempre atrasada. esperava cheia de angústia o ônibus, retocava o batom, secava o suor do rosto e já entrava na loja dando uma desculpa qualquer, falava do trânsito e do calor (no verão), ou do frio (no inverno).
À noite colocava a minha xícara de café sobre a mesinha de plástico embaixo da janela e esperava a hora dela passar de volta. o passo já parecia mais cansado e a cabeça mais baixa que na ida. não sabia o que ela ainda ia fazer em casa, quem sabe o jantar e o almoço do dia seguinte que levaria dentro da bolsa pra economizar algum dinheiro para uma roupa nova. ou quem sabe teria que lavar as roupas para que pudesse manter a rotina dos figurinos que usava para trabalhar. quem sabe não faria nada disso e se deitaria na cama, com o corpo nu.
ontem a noite mesmo sonhei que tinha descido no horário em que ela voltava do trabalho, havia ensaiado um esbarrão para que pudesse pedir desculpas cordiais e ouvir sua voz. ensaiei também um convite para um lanche na padaria que fica no outro quarteirão, que somente seria feito se ela desse um sorriso após as desculpas. e hoje tinha decidido descer e realizar o sonho planejado. escolhi a roupa casual que vestiria para que ela não percebesse que hoje já não trabalho mais e que fico o dia inteiro sentado à escrivaninha resolvendo pequenos problemas banais da vida de aposentado. chamei a faxineira logo cedo para uma limpeza geral, o meu quarto-e-sala anda cheirando a velho. pode ser eu mesmo, ou o tempo que estou morando aqui, tudo que o tempo toca termina por feder.
estava tudo pronto, conferi o vinho na geladeira e guardei a maconha que tinha encomendado de um garoto que mora com a avó no andar de baixo, podia ser que ela quisesse uns tragos enquanto bebesse o vinho. quando estava à porta parei, senti o frio da maçaneta, o cheiro de lavanda barata que saía da minha pele e parei para tentar lembrar da última vez que tinha tido uma mulher nos meus braços, ou mais longe ainda, quando tinha tido uma mulher dentro deste apartamento.
larguei a maçaneta, me desfiz do paletó azul-marinho na banqueta da cozinha e enchi a xícara com um café que requentava desde o início da tarde na cafeteira. puxei a poltrona, sentei junto à janela e espiava a tv muda do outro lado da sala quando a vi apontar na esquina com a sua roupa de quinta-feira. totalmente previsível: a mesma roupa, com a mesma maquilagem, o mesmo caminho, o café, o apartamento, ela, tudo era extremamente repetitivo! não sei de onde ela vem e nem pra onde vai, não sei quantos filhos e muito menos se é cheirosa, charmosa, se consegue conversar sobre música e filosofia. na minha mente ela ainda é tudo isso, tudo que envolve aquela mulher tem um mistério e se eu tivesse descido teria descoberto que ela não era nada daquilo que eu pensava e que até o seu cheiro me incomodaria. melhor mesmo ver de longe, ter como verdade os meus delírios e esperar ela passar. e lá vai ela com a sua vidinha, cabeça baixa e passo cansado.
vou esperar a tv cansar de se exibir do outro lado e sair do ar, voltar à escrivaninha e esperar a hora de voltar à janela amanhã de manhã. afinal de contas ela não pode ser mais interessante do que já é na minha mente. pior seria conhecer seus defeitos. boa noite!
sábado, 19 de dezembro de 2009
prelúdio de natal
ela só havia percebido a decoração de natal em todos os cantos do bairro quando a moça do balcão da padaria lhe desejou boas festas ao entregar o maço de cigarro continental. ainda não tinha captado as coisas que estavam parando a sua volta. havia mais de 15 anos que ela não comemorava um natal, não entrava na cozinha para preparar as dezenas de pratos imaginando os elogios que lhe renderiam durante a ceia. parecem ter sido 15 anos, não consegue mais contar o tempo corretamente, e sópercebe o domingo pelo movimento de velhos, mais velhos que ela, na padaria bebendo vermute e lendo o jornal mais grosso da semana, esse era o domingo. o cigarro e a moça no balcão eram os mesmos de todos os dias, faria, então, qualquer diferença entre uma terça-feira a tarde e um domingo de manhã, além dos velhos e do jornalmais grosso? nenhuma! que diferença teria se contasse o tempo corretamente? tenta, as vezes, medir os anos pelo enrrugar do rosto, em frente ao espelho descobre as novas dobras embaixo dos olhos, o amarelar dos dentes.. por outros tempos fica sem se olhar no espelho e passa diversas noites sem sequer acender a luz do quarto, e assim só vê as sombras dos porta-retratos em cima da cômoda e mesmo assim sabe, com detalhes, quais são as fotos ali, onde elas foram tiradas, o que aconteceu naqueles dias, o que foi dito antes delas serem registradas pela canon do filho mais novo. tenta evitar olhar as imagens, como se isso amenizasse a dor que a imagem traz. entra no apartamento, pela janela entra um golpe de luz que clareia a foto de todos juntos no cristo redentor... com uma lágrima empoçada no canto dos olhos ajoelha no quarto com a foto nas mão e a imagem daquele cristo e começa a rezar, é natal.
domingo, 6 de dezembro de 2009
prelúdio
ela estava deitada na cama de seu quarto, com os cabelos ainda molhados do banho, nua em pêlo. o seio tocava a cama como se buscasse um carinho, o corpo lânguido se espalhava por cima dos lençóis emaranhados e era lambido pelo vai-e-vem do ventilador. o livro tocava levemente o outro seio. a história ultrapassava o livro e tocava a pele dela. o autor do livro tinha a moça nua, entregue, destemida. a pele ouriçada, com pelos arrepiados, ela se entregava à personagem do livro. amava a moça do livro como gostaria de amar a si mesma e como queria que os homens de sua vida a amassem. os orgasmos passageiros nunca tinham sido intensos como o prazer que aquele momento lhe dava. ela parecia sentir o relógio parar, o mundo esperava que ela sorvesse o prazer pleno daquele momento. o ventilador parecia parar de girar e fixava as lambidas no colo alvo e nos bicos rosados dos seios. pensava na torpeza dos seus amores, nos toques e nas coisas que sentia sem querer.
ela queria mesmo ser aquela mulher que era naquele momento. queria poder amá-la, mostrar a todo mundo quem era, como era e o que pensava. sentia ser ali, trancada em seu quarto, uma mulher mais linda, sensual, poderia ter qualquer homem a seus pés sem o menor esforço. já sentia o prazer de ser desejada. ia ter os melhores amantes, sem pensar no amor, só ia gozar. depois, cansada de tanta volúpia poderia dedicar-se a alguém, mas seria uma devoção como a um santo. teria somente uma chance de amar e de mostrar que seria a melhor amante... o poder de conquistar e de devotar-se para ser amada e devotada por alguém.
os delírios transpiram, molham a pele. gotículas em torno dos lábios grossos, a língua com sede sente o sal que sai do corpo e aumenta sua sede. o delírio vem em forma de suor e de sorrisos. o quarto vai ecurecendo e o cabelo vai emprestando a umidade ao travesseiro. olha para o relógio na parede e vê que ficou a tarde inteira deitada, amando e sendo amada por ela mesma. num estalo levanta da cama, veste a calcinha que estava no criado mudo, desliza o corpo pra dentro dum vestido rosa que faz ela se sentir meio francesa quando o vento sopra e ameaça mostrar alguma vergonha sem seu consentimento. ia descer a escada correndo, cantoralando uma canção do chico e caminhar pela rua. ia tentar sem a mesma mulher deitada nua na cama, queria poder mostrar ao mundo o retrato de seu corpo deitado de lado, com as vergonhas salientes e ouriçadas, na cama, queria que pudessem adimirar seus seios, que sentissem o cheiro de seus cabelos ainda molhados... queria sentir o amor possuindo a pele, corpo e mente. e gozar também.
ela queria mesmo ser aquela mulher que era naquele momento. queria poder amá-la, mostrar a todo mundo quem era, como era e o que pensava. sentia ser ali, trancada em seu quarto, uma mulher mais linda, sensual, poderia ter qualquer homem a seus pés sem o menor esforço. já sentia o prazer de ser desejada. ia ter os melhores amantes, sem pensar no amor, só ia gozar. depois, cansada de tanta volúpia poderia dedicar-se a alguém, mas seria uma devoção como a um santo. teria somente uma chance de amar e de mostrar que seria a melhor amante... o poder de conquistar e de devotar-se para ser amada e devotada por alguém.
os delírios transpiram, molham a pele. gotículas em torno dos lábios grossos, a língua com sede sente o sal que sai do corpo e aumenta sua sede. o delírio vem em forma de suor e de sorrisos. o quarto vai ecurecendo e o cabelo vai emprestando a umidade ao travesseiro. olha para o relógio na parede e vê que ficou a tarde inteira deitada, amando e sendo amada por ela mesma. num estalo levanta da cama, veste a calcinha que estava no criado mudo, desliza o corpo pra dentro dum vestido rosa que faz ela se sentir meio francesa quando o vento sopra e ameaça mostrar alguma vergonha sem seu consentimento. ia descer a escada correndo, cantoralando uma canção do chico e caminhar pela rua. ia tentar sem a mesma mulher deitada nua na cama, queria poder mostrar ao mundo o retrato de seu corpo deitado de lado, com as vergonhas salientes e ouriçadas, na cama, queria que pudessem adimirar seus seios, que sentissem o cheiro de seus cabelos ainda molhados... queria sentir o amor possuindo a pele, corpo e mente. e gozar também.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
prelúdio II
ela ainda procurava seus óculos pela cabeceira de mogno ao lado da cômoda. tateando por entre o abajur e o rádio-relógio puxou os olhos de vidro pelas pernas, do mesmo jeito que faz há mais de 25 anos. desde que seu falecido marido a levara para conhecer aquela que seria a casa da família, ela já sabia que passaria o resto da vida tateando por entre aquelas paredes.
no começo ela não queria mudar da casinha de dois andares no bexiga. ela gostava do cheiro de massa e de tomate que tomava a rua todas as manhãs, era como se fosse um prenúncio dos operários que invadiriam as ruas do bairro, rumo aos seus lares para o almoço com sua mulher e filhos. em duas, ou três horas no máximo, o sino da fábrica soaria e eles surgiriam como miragem ao fim da rua.
ela não queria mudar porque sabia que não conseguiria sair dali por inteira, seus olhos ficariam ali para sempre e é por isso que hoje tateia a cômoda da cabeceira.
mas como não tinha muita opção, teve que mudar-se para a casa na lapa. era a casa própria, comprada com o adiantamento dado pelo chefe do marido e algum dinheiro emprestado pelo banco. nunca entendeu bem como funcionavam as finanças mais complexas da casa, o máximo que sempre conseguiu fazer, e que fazia bem, era apresentar quinzenalmente o total das despesas no armazém. ela era capaz de dar conta de cada quilo de carne comprada, como fora preparada e o quanto cada um comera naquela ou noutra refeição. fato é que o dinheiro já não fazia mais tanta falta e à medida que o dinheiro se multiplicava, menos seu marido queria saber das suas contas no armazém e menos ainda estava disposto para ouvir suas histórias acerca desse ou daquele tipo de carne e de quanto tempo gastou na cozinha até que ficassem daquele jeito que foram à mesa.
foi andando com o ombro vez ou outra tocando na parede, como se buscasse um ponto de referência para guiar os passos ainda cegos. ainda insistia em acordar cedo e, como que por instinto, pegava na maçaneta do quarto dos filhos para acordá-los. só quando abria a porta e via as paredes descascadas e o entulho que tomara conta do cômodo ao longo dos anos é que se dava conta de que não havia mais ninguém em casa. mesmo assim conseguia ouvir os filhos resmungando que ainda era muito cedo e se contorcendo na cama tentando prender o sono na palma das mãos.
ainda sente o cheiro deles de manhã quando saíam do banho. eram as crianças mais lindas do bairro, quiçá do mundo inteiro, dizia ela enquanto beijava o rosto dos meninos. quando eles tomavam o café, cada um a seu jeito, ela embrulhava maçãs, sanduíches e espremia laranjas para o lanche deles. por cima do ombro pedia que não brigassem e olhava para o corredor para ver se o marido surgiria dando o nó em sua gravata. mas há muito tempo que ele começou a trabalhar mais cedo e quando saía de casa todos ainda dormiam.
ela senta na cadeira de balanço, pega o jornal do dia para ver as fotos. ela consegue entender o que aconetec no mundo sem sair de casa somente lendo as fotografias do jornal. as untas do corpo lateam e espalham uma dor contínua que ela não se recorda do dia em que elas surgiram. sabe apenas que foi na mesma época em que o marido começou a ter reuniões noturnas e sua presença na casa tornou-se ainda mais vaga. os meninos não tinham coragem de perguntar mais pelo pai e sempre receber como resposta o olhar dela cheio de amargura. sentia que estava envelhecendo e que ele deveria estar nos braços de alguma secretária bilíngue se preparando apara acordar.
essas coisas aconteceram há tanto tempo que as referências do passado começam a se confundir em sua cabeça e já não sabe se os filhos partiram primeiro ou se foi o marido. a solidão é tamanha que parece querer apagar o passado para dominar sozinha a mente e o corpo. o arrastar dos chinelos pelos tacos do piso da casa são os únicos sons que ela tem ouvido habitualmente, o ressoar pela madeira faz com que a casa inteira saiba pra onde ela está indo. ao chegar na cozinha abre a porta da geladeira e tira o pote plástico com a única refeição que vai fazer no dia, come aos poucos e até a janta ainda tem uma porção. a comida quem faz é a faxineira falante que aparece uma vez poir semana e consegue fazer um relato dos fatos mais importantes de sua vida enquanto puxa o sofá velho e varre por detrás dele. ela mal presta atenção nas histórias da mulher e aproveita para ver se consegue se lembrar da sua.
ela tranca a porta do quarto dos filhos para que a faxineira não mexa em nada. só ela arruma o quarto quando sente saudade dos filhos que já morreram. encosta o ombro na parede e vai até o quarto pra se deitar e procurar o sono que há muito tempo perdeu.
amanhã é dia da faxineira falante aparecer, e ali deitada na cama ela já começa a amontoar os acontecimentos na mente para começar a organizá-los assim que o sofá começar a ser arrastado. enquanto isso, do outro lado do mundo, uma moça descobre seu corpo nu e o desejo que está preso nele. sente inveja do corpo, do desejo e da moça que sequer conhece a feição.
sábado, 7 de novembro de 2009
elucubrações XI
ainda pensava naquela manhã quando atravessava a rua, o guarda vestido numa roupa amassada soltava silvos no apito que continham algum tipo de mensagem, pelo menos foi o que pareceu quando o motorista acenou com a cabeça complacente. na padaria da esquina não preciso mais pedir, o rapaz do balcão me avista de longe e já prepara o café. ando tão previsível que nas segundas e sextas ele sabe que prefiro um suco. e aí a rotina se repete: bebo o café, reclamo de não mais poder fumar meu cigarro no balcão, o rapaz comenta alguma coisa sobre um novo craque do time do santos, concordo com seus comentários, assino a caderneta no caixa.
entro no escritório com um cumprimento rápido a todos, outro café já me espera à mesa e os carimbos começam a soar. marcam o passar do tempo dentro da pequena sala que ocupo no oitavo andar do prédio. não lembro da última vez em que passei uma segunda-feira sem ouvir o bater de um carimbo, essas pancadas pareciam também apagar as memórias, parece que quando olho para trás não consigo me lembrar de nenhum outro momento que não tenha sido precedido ou seguido por um soar ensurdecedor de um carimbo.
a verdade é que me tornei um burocrata e não consigo mais pedir nada que não seja através de um requerimento, memso oralmente, até para pão da padaria é complicado me fazer entender! e não consigo atender a nada que não tenha sido pedido em duas vias, aviso do prazo de sete dias úteis, explicoa utilidade dos carimbos no verso e marco hora para a retirada do documento. fio furioso ao perceber que o interlocutor já nãoprestava mais atenção na explicação entre o segundo e o terceiro carimbo. as pessoas não valorizam mais um carimbo e já me pediram até para aceitar um protocolo digitalmente! senti-me ultrajado e ultrapassado! percebi que provavelmente sou a última pessoa que irá utilizar estes carimbos em cima da mesa, imagino que no dia seguinte à minha aposentadoria, ou à minha morte, o que vier primeiro, os carimbos serão recolhidos e jogados ao lixo. talvez alguém queira guardar algum para mostrar ao neto o objeto obsoleto, como uma espécie de relíquia. parece que vou virar uma referência temporal: a época dos homens que usava carimbos.
agora faço o caminho de volta pra casa, o cachorro é o único que vem me receber, faz festa e me acompanha até o quarto. o jornal já começou, ligo o som e começa a tocar o disco do roberto... melhor ir dormir porque amanhã ainda é quinta feira e vou trabalhar sem gravata e vou pedir um suco de alguma fruta da moda na padaria! quero radicalizar!
entro no escritório com um cumprimento rápido a todos, outro café já me espera à mesa e os carimbos começam a soar. marcam o passar do tempo dentro da pequena sala que ocupo no oitavo andar do prédio. não lembro da última vez em que passei uma segunda-feira sem ouvir o bater de um carimbo, essas pancadas pareciam também apagar as memórias, parece que quando olho para trás não consigo me lembrar de nenhum outro momento que não tenha sido precedido ou seguido por um soar ensurdecedor de um carimbo.
a verdade é que me tornei um burocrata e não consigo mais pedir nada que não seja através de um requerimento, memso oralmente, até para pão da padaria é complicado me fazer entender! e não consigo atender a nada que não tenha sido pedido em duas vias, aviso do prazo de sete dias úteis, explicoa utilidade dos carimbos no verso e marco hora para a retirada do documento. fio furioso ao perceber que o interlocutor já nãoprestava mais atenção na explicação entre o segundo e o terceiro carimbo. as pessoas não valorizam mais um carimbo e já me pediram até para aceitar um protocolo digitalmente! senti-me ultrajado e ultrapassado! percebi que provavelmente sou a última pessoa que irá utilizar estes carimbos em cima da mesa, imagino que no dia seguinte à minha aposentadoria, ou à minha morte, o que vier primeiro, os carimbos serão recolhidos e jogados ao lixo. talvez alguém queira guardar algum para mostrar ao neto o objeto obsoleto, como uma espécie de relíquia. parece que vou virar uma referência temporal: a época dos homens que usava carimbos.
agora faço o caminho de volta pra casa, o cachorro é o único que vem me receber, faz festa e me acompanha até o quarto. o jornal já começou, ligo o som e começa a tocar o disco do roberto... melhor ir dormir porque amanhã ainda é quinta feira e vou trabalhar sem gravata e vou pedir um suco de alguma fruta da moda na padaria! quero radicalizar!
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
elucubrações X
havia acabado de amanhecer, o sol ainda arriscava seus primeiros raios no céu cinza da cidade. ela resolveu acordar antes, mais cedo que o de costume, e se vestiu rapidamente. fiquei deitado observando seu jeito de calçar as sandálias de salto alto que deixavam suas pernas ainda mais marcadas e torneadas. ela provavelmente pensava que eu ainda estivesse dormindo, escovou os cabelos negros, levemente ondulados, tantas vezes que os fios começaram a tomar outra forma como se entendessem uma mensagem passada por ela através da escova. quando achou que estavam mais volumosos amarrou um rabo de cavalo no topo da cabeça e deixou a nuca desnuda. o cheiro do banho começava a dominar o quarto e misturava-se ao perfume que ela tinha acabado de passar. gostava do resultado final dessas fragrâncias juntas que resultavam num cheiro único: o cheiro dela. catou na bolsa algum documento fútil e tirou também um par de brincos de lá de dentro, ouvi ela reclamar baixinho que havia perdido uma das argolas que usou na noite anterior. tinha uma olheira embaixo dos olhos verdes que davam um ar mais velho em seu rosto, tratou de logo cobri-las e também coloriu o rosto como se fosse uma aquarela e um tom de rosa corou suas bochechas, um batom vermelho cobriu os lábios e lá estava ela! pronta para sair do apartamento. havia dito antes de cair no sono para ela pegar a chave em cima da geladeira e levar com ela, assim ela trancaria a porta e passaria ter acesso livre ao meu apartamento no centro da cidade. ela pegou as chaves... e em sua hesitação quase saltei da cama num só impulso para dizer que ela deveria levar sim a chave e que aquele gesto não significava nada demais! nenhum compromisso, apenas uma facilidade. contive meu impulso, apertei o travesseiro angustiado, mas ela devolveu a chave em cima da geladeira e bateu a porta levemente, com medo de me acordar e ter que entrar novamente para se despedir de mim e aí sim perguntaria das chaves e ela não teria como deixá-las ali em cima. agora tinha a desculpa da bebida e que pela manhã esqueceu minhas instruções e que por isso a chave havia ficado, mas que passaria algum dia, no fim de tarde, para buscá-las e que beberíamos uma cerveja nesse dia.
resolvi sair da cama, aproveitei para entrar no banheiro e fechar a porta, o cheiro do banho dela ainda deve durar algumas horas. as narinas estavam entorpecidas quando abri a porta e fui à cozinha preparar um café amargo. o cigarro ficou incensando do cinzeiro numa tentativa de tomar o ambiente e varrer de uma vez por todas o cheiro floral que o perfume da moça tinha. tenho certeza que àquela altura a casa já havia se livrado do aroma de anis, mas em mim ele parecia estar agarrado à pele e nos pelos da narina.
comecei o dia entorpecido pelo cheiro de flor da mulher e saí de casa agradecendo à força que manteve na cama no momento em que ela resolveu deixar a chave em cima da geladeira. porque eu não conseguiria aguentar mais um dia aquele cheiro preso a mim.
preciso correr! mais uma vez estou atrasado!
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